22 de abril de 2011
8 de abril de 2011
Doze meses.
Meu pássaro azul,
O mero acaso que te levou a repousar nos meus ramos não poderia ter sido mais feliz.
Foste tu quem me libertou das raízes de um passado áspero e masoquista. Transportaste as minhas sementes e deixaste-as multiplicar em infinitos “eus”( que nunca pensei existirem nestes troncos ocos). Ensinaste-me a enterrar complexos, medos e preconceitos, deste-me liberdade para aprender a viver.
Em suma, trata-se disso mesmo, de libertação. Pensei que eras só tu quem poderia voar, contudo, contrariaste-me e, aos poucos e poucos, foste desvirginando a folhagem da minha alma até chegares até mim.
Graças a ti, deixei de ser uma árvore e inerte e, tal como tu, já consigo voar. Finalmente.
Com carinho. ♥
26 de março de 2011
Torre de Babel.
Sinto-me entontecer. Uma amálgama de vozes penetra-me os tímpanos e vai-me ensurdecendo com uma intensidade cada vez maior. Estou exausta, não aguento mais, quero sair daqui.
Estou farta das conversas, das intrigas, das discussões. Farta de tantas pessoas a interrogarem-me o porquê, de me atribuírem tarefas e responsabilidades como se fosse o único ser humano à face da Terra, de despejarem tudo e mais alguma coisa em cima dos meus ombros. Farta de ter de fingir que está tudo bem e de ter de aceitar a incompreensão de quem sabe perfeitamente que não está – Se se estão nas tintas para mim, porque não tenho eu o direito de me estar nas tintas para vocês?! Caramba, sinto-me a sufocar neste cubículo, dêem-me paz!
É só o que quero... Não ter mais preocupações ou chatices, não ter de responder a mais ninguém e ficar a sós com a minha dor. Afinal, é só ela que me resta...
20 de março de 2011
Meu querido pássaro azulado,
13 de março de 2011
Considerações sobre a existência - II
Hoje não quis existir. É um fardo demasiado pesado que preferia não ter de carregar esta noite.
Embebida neste tédio silencioso, sentei-me em frente ao espelho. Se me observasse durante muito tempo, quem sabe se o meu reflexo não se evaporava... Ou talvez passasse a existir apenas do lado de lá, deixasse a minha matéria aprisionada neste grande vidro e esvoaçasse livremente entre todos os átomos deste planeta.
Contemplo o meu rosto lasso, magro, amarelado – do que ele precisava era de repouso eterno. Os olhos, pequeninos e mortiços, pedem para serem encerrados por um período de tempo indefinido. As rugas mostram-me que já vivi o suficiente, é inútil tentar prolongar-me.
Já chega de mim. Desejo sair de mim mesma e flutuar num nada em que não exista nem tempo nem espaço. Ou então renascer. Sim, experimentar a existência numa outra carne, num sangue que não o meu. Voltar a chorar pela primeira vez, a sorrir pela primeira vez, a caminhar pela primeira vez. Desprender-me das memórias e do conhecimento que fui adquirindo ao longo dos anos. É isso, o ideal seria reiniciar-me por completo!...
O meu reflexo continua preso no espelho – de que serviram os meus desejos e quimeras? Não tenho alternativa senão viver; não há outra solução senão respirar e arrastar-me vagarosamente pelos corredores.
00h00. Menos um dia até ao meu fim. Ultrapassei mais vinte e quatro horas da forma mais vazia e banal possível. Bem, não ter feito qualquer estrago já é suficientemente bom. Afinal de contas, mais vale insignificante e medíocre... do que nocivo e genial.