

Fui parar àquele largo deserto por mero acaso. Caminhara durante longas horas na escuridão amarelada da noite que insistia em não terminar. Talvez eu não andasse à procura do automóvel, do que eu precisava era de me encontrar a mim mesma.
E, de repente, tornou-se tudo bem claro. O largo estava de novo pintalgado de vultos negros que contrastavam com o céu translúcido. Voltei a ver monstruosos ramos de flores a flutuar em torno da igreja e a ouvir incessantes lágrimas a perfurarem a calçada.
Porque é que o pior dia da minha vida tinha de me vir assombrar na minha fase mais feliz? Porquê hoje? Porquê voltar a recordar tudo isto? Não poderei eu guardar apenas os momentos bons?
Agora, nesta noite, está tudo tão calmo... Parece um local esterilizado de reminiscências. Um espaço sem tempo nem memória.
Tu, que estás comigo, tem a bondade de me pegar na mão e tirar-me daqui. Já chega de cá deixar pedaços de mim.
Sem penetrar em exaustivos rodeios, exponho desde já o problema que me tem afectado as entranhas nos últimos meses:
Estou a atravessar uma crise criativa.
Sim, é essa a razão pela qual não tenho escrito nada dos últimos tempos, e também o porquê de me encontrar a fazê-lo agora.
Nas minhas tão intelectuais leituras de Verão, aprendi que um pêlo encravado só o é pois não consegue atravessar a barreira da pele seca e, consequentemente, inflama. Com as minhas palavras, passa-se exactamente a mesma coisa: elas revoltam-me o estômago, perfuram-me as veias, tentam ser expelidas a qualquer custo; contudo, a minha estabilidade emocional não o permite. Consequências? Todo o mau estar físico e psicológico que tenho estado a viver.
A solução, segunda a mesma fonte, passa por uma esfoliação na área de pele afectada... Mas como hei-de eu de destruir este meu muro de protecção e segurança? Do que terei eu de abdicar para me voltar a sentir vulnerável?
Na verdade, eu bem sei a resposta para estas questões, todavia, recuso-me a colocá-las em prática. Há esfoliantes com efeitos secundários muito perigosos e eu não quero sofrer com essas reacções adversas...
Isto que inflame... Em pior estado que as minhas virilhas não há-de ficar.