22 de dezembro de 2009

Purificação


Nesta rua, é inaudível qualquer vestígio de existência humana. Um pequeno número de folhas secas vagueia pela descida de asfalto, e mais nada se parece mover.

Quebrou este inquebrável silêncio uma aragem desconcertante, gradualmente mais intensa. Beija-me o cabelo e faz dançar a penugem das árvores, transportando de seguida uma sensação de solidão de maiores proporções.

Liberto então o meu olhar neste vazio, nas esperanças corroídas e oxidadas pelo tempo que não se quer fazer esperar. Inesperadamente, sem autorização ou aviso, sinto uma gota de água sobre a minha face, e não sei se é uma lágrima ou a chuva miúda que surge neste momento, acidificando e desgastando o solo.

Sem dó nem piedade, a precipitação fura os telhados repletos de sujidade, fura o banco de jardim esquecido, fura a beata do primeiro cigarro abandonado ao acaso. Cai assim, tão cruelmente, tal como as minhas lágrimas se deitam nos lábios ressequidos em direcção ao âmago do meu ser. Fura e fere, ou não fosse a dor o primeiro sinal da cura.

Depois, escorre. Desliza pelas goteiras, levando as impurezas consigo; navega pela estrada abaixo; flui como gota de orvalho que desfaz a frágil e intocada virgindade matinal. Varre-nos os pecados do espírito, desentope-nos as artérias, essas lágrimas malditas!

Por fim, evapora. É absorvida pela terra e purifica-a, dando vida por onde quer que passe. Também o meu choro me purificou, permitindo a germinação de novos sentimentos.

É pois a água que tudo cura e salva, tanto os males da matéria comos os males da alma…

21 de dezembro de 2009

Salada Russa

O meu cérebro pregou-me daquelas partidas onde é possível interrogar tudo. Um frenesi de ideias flutuam em cada neurónio meu.
Sabem que mais?, o meu cérebro hoje está uma salada russa! Cozido como um ovo, mas fresco como uma alface e, tal como o atum absorve o óleo, também ele absorve cada pensamento à sua volta!




(histeria intelectual também proveniente de algumas horas sem tocar em substâncias comestíveis)

18 de dezembro de 2009

Nostalgia - Capítulo IV

Dormir é bom...



Mas dormir em grupo é ainda melhor.
[07 de Dezembro de 2007]

16 de dezembro de 2009

Duelo de silêncios.

Admito que saí vencida nesta morosa batalha. No entanto, ninguém venceu esta guerra. Tanto eu como tu saímos a perder…

14 de dezembro de 2009

A vizinha do lado

Raro era o dia em que os meus olhos não repousavam na minha vizinha. O seu corpanzil inerte, tricotando incessantemente reminiscências no alpendre da sua habitação, era visível através da janela do meu quarto.

De cabelo grisalho e desgrenhado, olhos graves e miúdos, um ritual insistente dos seus cotovelos afilados incidia no frenético gesticular dos braços moles com direcção ao vazio. As mãos grossas e ásperas coçavam o rosto cujas rugas transmitiam uma sensação de pura apatia.

E era com um deleite inquieto que escutava secretamente as suas vagarosas e ruidosas falas: lamentações, utopias e conselhos de uma vida dura para outras existências anónimas.

Fora sempre ela o exemplo do que eu não queria viver nem ser: o corpo do marido dilacerado no Ultramar, o duro trabalho no campo, a rejeição voluntária do único descendente que se recordava dela, um rol de ódios e amarguras pendentes em cada prega do estômago preenchido de fel.

Não mais avistei a minha vizinha, a quem decidiram trocar a cadeira balouçante pelo leito frio do hospital. Insistem na luta por uma vida que ela afirma a pés juntos não desejar. Menos inóspito seria certamente definhar confortavelmente no regalo do ar campestre. Mas não, o prolongamento inútil daquele sofrimento dá-se num local estranho, onde nem mil pessoas podem disfarçar a solidão que a minha vizinha sente. Essa amarga solidão… que eu tanto receio.

12 de dezembro de 2009

Ice Queen is dead.


Hoje senti calor. Não, não é dessas elevações da temperatura ambiente.
Há muito que me chuparam o sangue e congelaram os pulmões. Tornei-me tão insensível nos últimos tempos, indiferente a qualquer sofrimento que não o meu, enfim, refugiei-me no egoísmo da racionalidade tomada pelo ódio! Todo o sorriso era hipócrita quando o coração não sentia. Os abraços ternurentos destinavam-se apenas à auto-preservação.
E, mesmo sem ponta de vida em mim, consegui magoar-me na mesma. Entre devaneios e outras filáucias, uma leve mancha de ilusão, sonho e pseudo-atracção, levou-me forçosamente a tomar consciência que tal não se poderia prolongar nem mais um só momento.
No presente dia, o degelo teve início. Um abraço semelhante a qualquer outro despertou em mim um (re)nascer. As células voltaram a trabalhar e ganhei cor nas bochechas anterior e simultaneamente pálidas e arroxeadas do frio.
Uma mescla de sentimentos virou do avesso a minha manhã: ciúme, amor, compaixão.
«Estou viva!», gritei para mim mesma.

Mesmo que a inércia me devore a flexibilidade dos membros, que o atrofio dos músculos abraçados a si mesmos na solidão de uma noite tenebrosa permaneçam imóveis, hoje o coração sente. Hoje, eu sinto.