Hoje senti calor. Não, não é dessas elevações da temperatura ambiente. Há muito que me chuparam o sangue e congelaram os pulmões. Tornei-me tão insensível nos últimos tempos, indiferente a qualquer sofrimento que não o meu, enfim, refugiei-me no egoísmo da racionalidade tomada pelo ódio! Todo o sorriso era hipócrita quando o coração não sentia. Os abraços ternurentos destinavam-se apenas à auto-preservação. E, mesmo sem ponta de vida em mim, consegui magoar-me na mesma. Entre devaneios e outras filáucias, uma leve mancha de ilusão, sonho e pseudo-atracção, levou-me forçosamente a tomar consciência que tal não se poderia prolongar nem mais um só momento. No presente dia, o degelo teve início. Um abraço semelhante a qualquer outro despertou em mim um (re)nascer. As células voltaram a trabalhar e ganhei cor nas bochechas anterior e simultaneamente pálidas e arroxeadas do frio. Uma mescla de sentimentos virou do avesso a minha manhã: ciúme, amor, compaixão. «Estou viva!», gritei para mim mesma.
Mesmo que a inércia me devore a flexibilidade dos membros, que o atrofio dos músculos abraçados a si mesmos na solidão de uma noite tenebrosa permaneçam imóveis, hoje o coração sente. Hoje, eu sinto.
O que tenho hoje a dizer dói, dói demasiado para que tente sequer transmiti-lo de outra forma que não na angústia dos meus pensamentos.
Contam-se às centenas os dias que passaram desde que ouvi a tua voz pela última vez. Ou que te vi sorrir para mim. Ou que ouvi um “gosto de ti” oriundo dos teus lábios.
Parece incrível como num dia afirmas que eu sou umas das tuas mais preciosas amizades, e no dia seguinte pedes-me silêncio, um silêncio que me comprometi a manter e que, como tal, espero que nunca leias este texto; caso contrário, bem podes afirmar que fui contra a minha própria palavra.
Nunca te usei. Não sei quantas vezes será necessário repetir isto até que entendas. O facto de me ter servido do provérbio «Os amigos servem para as ocasiões», de ter pedido a tua ajuda, não invalida o facto de te amar muito. Se entendes que pedir a tua ajuda para algo que me poderia vir a fazer bastante feliz é usar-te, vale a pena contestar?
Contudo, não afirmo que tenhas sido a única responsável pelas palavras surdas com te diriges a mim todos os dias. Claro que errei!, fui egocêntrica ao ponto de me esquecer que também poderias, tal como eu, sentir-te menos bem. Pedi-te e volto a pedir-te perdão por isso. Mais do que isso, não posso (nem quero) fazer.
Não irei rastejar pelo reatar de quinze anos de história entre nós. A decisão foi inteiramente tua, portanto continua com o teu orgulho que julgas proteger-te de tudo o que te possa magoar. Um conselho de quem se preocupa contigo: às vezes é preciso ficar vulnerável para ser feliz, é necessário correr riscos.
Já cedi que chegue. Ficas aqui a saber como sinto a tua falta, assim como eu sinto que também o sentes.
«(...) Isto é para sempre. Tu amas-me, eu amo-te, e isso nunca mudará (e se antes tinha algumas reservas em relação a esta afirmação, guarneço-me agora de certezas).»
Este tema, também apelidado de casamento civil entre pessoas do mesmo sexo (que afinal de contas o termo “homossexual” pode ferir a susceptibilidade dos mais sensíveis), inunda os meios de comunicação todo o santo dia, e com toda a razão, pois o assunto é deveras pertinente.
Antes de mais, encontramos na nossa lei uma verdadeira
I-N-C-O-N-S-T-I-T-U-C-I-O-N-A-L-I-D-A-D-E!. Recordemos pois dois artigos da Constituição da República Portuguesa:
Artigo 13º
2 - Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.
Artigo 36º
1. Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.
Ora, se todos os portugueses têm o direito de contrair casamento em condições de plena igualdade, e se ninguém pode ser discriminado em função da sua orientação sexual, existe algo que não faz muito sentido e que é urgente modificar.
Em segundo lugar, todos sabemos que o casamento possui um regime jurídico muito específico que difere da união de facto. Nesta última não há efeitos sucessórios, não estão expressamente previstos deveres de assistência, não há um regime de divórcio que assegure a posição de cada elemento do casal e não há possibilidade de regime de comunhão de bens. Digam-me agora que uma pessoa leva a vida a construir uma futuro com a pessoa que ama, e depois, quando o outro vai desta para melhor, não tem direito a nada, simplesmente por ser homossexual!
Algo que também me abala e me faz apetecer trepar paredes são as justificações que algumas pessoas dão para não assumirem que são preconceituosas: o casamento é entre um homem e uma mulher e só assim faz sentido, o casamento é uma união cujo objectivo é assegurar a continuação da espécie, há assuntos no país que merecem prioridade face a estas questões “secundárias”…
Quanto ao primeiro argumento: o amor não tem género. O casamento não é mais do que um contrato que pretende celebrar o amor entre duas pessoas. Independentemente de se realizar entre um homem e uma mulher, duas mulheres ou dois homens, estão ali duas pessoas que têm os mesmos direitos que todas as outras. Não há argumento que possa justificar o prolongamento de uma situação tão evidente de discriminação.
Quanto ao segundo, e baseando-me na minha primeira refutação, o amor é um fim em si mesmo. Se nos fôssemos basear nessa absurda ideia, teríamos de proibir o casamento entre casais heterossexuais que, simplesmente, não pretendem ter filhos.
Em relação ao último, como é que é possível vivermos numa nação em que o dinheiro é superior ao bem-estar das pessoas? Ah, esqueci-me, vivemos em Portugal…
Em suma, se cada um se metesse na sua vidinha e não colocasse entraves à felicidade dos outros, já que isso não os vai afectar directamente, estaríamos muito melhor. Portanto, o duque de Bragança que vá mas é gozar o seu título bem longe e aprovem-me duma vez por todas esta LEI!
Chegou finalmente a altura de levantares esse rabo gordo da poltrona e trabalhares um bocadinho (é óbvio que recebes o rendimento mínimo, caso contrário não serias tão mandrião!). Não me poderia ter comportado de melhor forma durante este ano cujo final se avizinha; já tu estás a merecer umas belas palmadas. Achas bem patrocinares como ofertas natalícias valores unicamente materiais, seu consumista de meia tigela? E mesmo assim és um incompetente, pois ofereces às criancinhas brinquedos bélicos e que incitam à violência! Não poderás tu embrulhar duas doses de ternura para um pai desnaturado, ou três caixinhas de alegria para uma criança com cancro?! Por favor, não fiques a pensar que o meu objectivo é dar-te um grande raspanete, bem pelo contrário, desejo que sejas muito bem sucedido! Aliás, estou a contar com isso para que os meus pedidos desta época festiva se tornem realidade. Em primeiro lugar, tens de fazer com a que a minha professora de Filosofia ganhe o Euromilhões e crie um hotel para gatos. Pode ser qualquer outra coisa, desde que a faça desistir de dar aulas! Em segundo lugar, já que tu és o PAI-Natal, bem que podias dialogar com a MÃE-Natureza, só assim a ver se não está previsto nenhum sismozinho cuja magnitude desvie as placas tectónicas de modo a que o sítio onde resido fique muito mais próximo de Corroios… E claro, como não poderia deixar de ser, um parzinho de meias e outro de cuecas, que a minha roupa interior ameaça a completa ruína!
Despeço-me com um grande sorriso de compaixão, Yirien
Texto criado para a "Fábrica de Letras" [clique no link da barra lateral direita]
A minha felicidade não passa por ti. Nem sequer lá perto.
Eu forço, eu insisto em passar pela tua auto-estrada como um atalho para aquilo que procuro. Bem, não me vais levar a lado nenhum.
Assim que eu me consciencializar que nem sempre o caminho mais rápido é o melhor, quando eu entender que me enganei e que estou perdida, voltarei para trás. Por enquanto, vou-me iludindo neste desvio, aproveitando minuciosamente cada minuto que tens disponível para mim.
As consequências que venham depois. Não temo mais o sofrimento, ou a desilusão. Deixa-me viver cegamente como não vivo há muito tempo. Os pés que flutuem, já estão entediados de permanecer enterrados no solo.
Quando o confronto chegar, eu resistirei. Sem arrependimentos. Lidarás com as difíceis palavras que te direi, e eu suportarei com um sorriso no rosto o teu monólogo de consolação.